terça-feira, 5 de abril de 2016

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA NA NUMISMÁTICA

A Vitória de Samotrácia na Numismática


retratando a Vitória de Samotrácia (220-185 a.C.)

                   A Vitória de Samotrácia é uma estátua feminina alada representando a deusa mensageira da vitória, Niké. É parte constante de um monumento com base em forma de proa de navio. A estátua foi realizada em mármore de Paros branco, medindo 2,75 metros de altura com suas asas. A altura total do monumento (estátua mais a proa do navio) mede 5,57 metros.
                        A ilha de Samotrácia esta localizada no Mar Egeu, ao largo da costa da Trácia, nordeste da Grécia. Ela é dominada por uma alta montanha que se ergue do mar. No pé desta montanha, havia um antigo santuário dedicado aos Grandes Deuses, ou deuses Cabiras[1].
                        Em março de 1863, Charles Champoiseau, vice-cônsul da França em Adrianópolis[2] e arqueólogo amador, começou a explorar aquele santuário, já em ruínas, com a pretensão de encontrar belos objetos para o Museu Imperial de Paris.
                        Em 15 de abril de 1863, os trabalhadores que exploravam a extremidade do terraço que dominava o santuário, descobriram diferentes partes de uma grande estátua feminina. As pesquisas continuaram para encontrar a cabeça e os braços, mas em vão. No entanto, foram encontrados diversos fragmentos que foram cuidadosamente recolhidos e que permitiram a Champoiseau de sugerir tratar-se de uma representação da deusa mensageira da vitória, Niké.
                        O material foi enviado ao Museu de Louvre em Paris, chegando lá um ano depois, ou seja, em 11 de maio de 1864. Em 1866, depois de um trabalho minucioso de restauração, somente o bloco principal do corpo foi exposto, Champoiseau havia encontrado juntamente com a estátua, os restos de uma pequena edificação composta de grandes blocos de mármore cinza, que ele deixou lá, pensando se tratar de um túmulo. 
                        Em 1875, um arquiteto da missão arqueológica austríaca, examinou aqueles blocos e chegou à conclusão que montados corretamente formariam a proa de um navio que servia de base para a estátua. Ele ainda fez a comparação com moedas gregas datando do reino de Demétrio I da Macedônia (336-283 a.C)[3], em que figura uma Vitória em pé sobre a proa de um navio. Esta representação fez pensar que Demétrio havia edificado a estátua da Vitória de Samotrácia em comemoração a vitória naval sobre Ptolomeu em Salamina de Chipre no ano de 306 a.C. Mas nesta época, Samotrácia encontrava-se sob o controle de Lisímaco, inimigo de Demétrio. Assim, parece improvável que ele pudesse dedicar tal monumento a seu inimigo. Hipóteses mais modernas situam a construção por volta do segundo século antes de Cristo.



Figura 2 – Tetradracma de prata (17,15 g; 27 mm), cunhado em Salamina de Chipre em torno de 300-295 a.C. por Demétrio Poliórcetes[4], rei da Macedônia (306-283 a.C.). No anverso temos sobre a proa de um navio de guerra vencido, uma Vitória alada portando uma trombeta na mão direita e na esquerda a parte superior do mastro do navio. No reverso: Poseidôn em pé porta um tridente no braço direito e no esquerdo um manto. À direita no exergo, legenda grega (DEMETRIOU BASILEÔS) no campo, monograma, estrela com dezesseis pontas. Esta moeda é anterior ao reinado macedônio de Demétrio que começou em 294. Ela comemora a vitória do filho de Antígono, companheiro de Alexandre sobre Ptolomeu, em Salamina de Chipre em 306 a.C. É um navio de guerra vencido, eis que o ornamento da proa, que pode ser visto logo abaixo da trombeta, encontra-se seccionado. (BNF - Biblioteca Nacional da França, Moedas, medalhas e antiguidades, 1973/1.73)

                        Em 1879, Champoiseau informado sobre a descoberta, empenhou-se a enviar os blocos da proa a Paris. A remontagem foi realizada no pátio do Museu do Louvre. Em seguida foi feita a reconstrução completa da obra. Apenas a cabeça, os braços e os pés não foram reconstituídos. A restauração foi concluída em 1884.

                        O monumento foi colocado então em frente ao eixo da escada Daru que havia acabado de ser concluída produzindo um efeito espetacular.
                        Em 1937, a Espanha em plena guerra civil (1936-1939) emitiu uma cédula no valor de 1 peseta (P.94), tendo no anverso a imagem da Vitória de Samotrácia. Ao que tudo indica, trata-se de uma emissão da Segunda República Espanhola, ou seja, anterior ao regime franquista.
  



 Figura 3 – Anverso da cédula de 1 peseta (P.94), da Espanha, impressa pela “Fabrica Nacional de Moneda y Timbre” e emitida em 1937. À esquerda Vitória de Samotrácia. Dimensão aproximada: 92 mm X 52 mm.                


                   Em setembro de 1939, durante a 2ª Guerra Mundial, a estátua quitou o Museu do Louvre para ser colocada em "segurança" (clique aqui para ver a matéria sobre este assunto) no Castelo de Valençay (Indre).



Figura 4 – Vitória de Samotrácia em setembro de 1939 sendo retirada do Museu do Louvre. Fonte: Instalattor.

                        Em 1941, a Grécia sob ocupação das forças do Eixo (1941-44), emitiu duas cédulas que traziam a Vitória de Samotrácia, a cédula de 50 lepta de 1941 (P.316) e a de 5.000 dracmas de 1942 (P.119). Em novembro de 1944 foi lançada a cédula de 50 dracmas (P.169), já com o país liberado e que também traz a imagem da Victória de Samotrácia.




Figura 5 – Anverso da cédula de 50 lepta (P.316), da Grécia, impressa pela “Aspiotis-Elka”, e emitida em 1941. Dimensão aproximada: 68 mm X 33 mm. À esquerda Vitória de Samotrácia. É umas das menores cédulas de banco já emitidas. Além de ser impressa nas duas faces, possui numeração e assinatura e contém até mesmo o nome do impressor.



Figura 6 – Anverso da cédula de 5.000 dracmas (P.119s), da Grécia, emitida em 1942. Dimensão aproximada: 165 mm X 82mm. No centro Vitória de Samotrácia.



Figura 7 – Anverso da cédula de 50 dracmas (P. 169), da Grécia, emitida em 1944. Dimensão aproximada: 115 mm X 69 mm. À esquerda Vitória de Samotrácia.


                        Em 1945, a Vitória de Samotrácia retornou ao Museu do Louvre e foi instalada no seu local tradicional, que quitou apenas em 2013 para a restauração (a quarta da sua história) que foi concluída, com sucesso, em 2014.



  
Figura 8 – Moeda de 100 francos de 1993 (KM # 1019a), AU, 17,00g; 31 mm. Série do Bicentenário do Museu do Louvre. 5.000 exemplares. No anverso Vitória de Samotrácia.


Quadro Geral das emissões constante nesta matéria[5]

Salamina de Chipre
Tetradracma de prata
300-295 a.C
17,15 g; 27 mm
Espanha
1 peseta (P.94)
1937
  92 mm X 52 mm
Grécia
50 lepta (P.316)
18.06.1941
  68 mm X 33 mm
Grécia
5.000 dracmas (P.119 a, b e s)
a. Papel sem marca d água.
b. Com marca d água (mesmo papel usado nos bônus do Tesouro (P.136-144)
s. Specimen
20.06.1942
165 mm X 82 mm
Grécia
50 dracmas (P.169 a e s)
a. Cédula de circulação.
s. Specimen
9.11.1944
115 mm X 69 mm
França
100 francos KM # 1019a (Prova)
1993 (5.000 exemplares)
17,00 g; 31 mm



Figura 9 – Vitória de Samotrácia no Museu do Louvre, após a restauração em 2014. Pode-se verificar a falta dos ornamentos da proa e do rostro (ou aríete) que era um prolongamento da proa utilizado para esmagar o casco dos navios inimigos, que não foi encontrado.


Bibliografia:

- CoinsArchives.com 29/3/2016
- gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France
- Wikipédia / Démétrios ler Poliorcète 30/3/2016
- Standard Catalog of World Coins, 1901-2000. Edited by George S. Cuhaj. Iola/USA: Krause Publications, 40 th edition, 2012.
- Standard Catalog of World Paper Money, 1368-1960. Albert Pick - Edited by George S. Cuhaj. Iola/USA: Krause Publications, 12 th edition, 2008.

Vídeos – história e restauração (em francês).



Autor: Marcio R. Sandoval (sterlingnumismatic@hotmail.com)

Obs.: A parte do texto que traz a história do monumento é, em boa parte, uma tradução e interpretação retirada da bibliografia apontada. Os demais apontamentos são de nossa autoria exclusiva.

[1] Divindades misteriosas adoradas em diversos locais da Grécia antiga e, sobretudo nas Ilhas de Samotrácia e de Imbros.
[2] Hoje, Edirne na Turquia.
[3] Foi General de Alexandre o Grande e depois Rei da Macedônia (306-287 a.C.)
[4] Aquele que“sitiava as cidades”.
[5] Não tivemos a pretensão de ser exaustivos, mas acreditamos que em relação às cédulas o quadro pode estar completo.